Números alarmantes
de desalojados em Macau
Rita
Marques Ramos – Hoje Macau - 17 Ago 2012
Até Junho, o abrigo
da Caritas recebeu 246 pessoas, mais 84 do que no ano passado, segundo dados do
Instituto de Acção Social (IAS)
A
prosperidade financeira do território, que tem a menor taxa de desemprego de
que há registo (2%), não chega para evitar a crescente taxa de sem-abrigo em
Macau. Os últimos registos mostram um aumento significativo de residentes que
precisam de ajuda dos serviços governamentais (IAS) e da Caritas Macau, que no
último ano acolheram na Casa Corcel – o antigo Centro de Acolhimento para
Desalojados – 368 pessoas. Um crescimento em cerca de 57% face a 2010. Nos
primeiros seis meses deste ano, comparativamente a período homólogo de 2011, a
tendência mantém-se. Foram albergadas 246 pessoas até Junho, mais 84 do que nos
primeiros seis meses do ano passado, segundo dados avançados pelo Instituto de
Acção Social (IAS) ao Hoje Macau.
Actualmente, nas
ruas da cidade encontram-se ainda cerca de 40 a 50 sem-abrigo, avançou Paul
Pun, secretário-geral da Caritas Macau, entidade diocesana responsável pela
Casa Corcel, na Ilha Verde. “Parece não ser um grande número mas
proporcionalmente, tendo em conta o número total de habitantes, é bem maior do
que em Hong Kong.”
As razões para este
flagelo estão associadas a diferentes causas. Paul Pun evidencia a principal.
“Hoje em dia não conseguem pagar a renda e são convidados a sair, estão cada
vez mais altas.”
Numa sociedade
moderna, com cada vez mais mulheres trabalhadoras, quem era pouco afectado já
não escapa: as mulheres. “Não havia muitas a caírem nas ruas”, explica. Hoje
são mais independentes e, por isso, acabam por ser um alvo mais fácil.
Apoio técnico
insuficiente
Os serviços de
abrigo da Caritas, situados no Centro Social Mateus Ricci, abriram com o
director-fundador Padre Luis Ruis Suarez nos anos 70, ajudando homens
necessitados. Só nos anos 90 a Caritas arranjou um asilo temporário, que
acolhia habitualmente cerca de 20 homens. Um número muito limitado de vagas,
explica o IAS, com um ambiente “simples e tosco”. “Era apenas um armazém em que
até às casas de banho eram pequenas”, atesta Paul Pun.
Em Setembro de
2007, os serviços de acção social prestaram apoio financeiro para reconstruir
um edifício com sete pisos destinado ao acolhimento de sem-abrigo, sob a gestão
da Caritas. “Este equipamento social é capaz de prestar agora serviços a um
total de 86 desalojados, reservando um piso para o alojamento das mulheres”,
explica o IAS. Números não confirmados para já por Paul Pun, que só vê capacidade
na Casa para acolher 40 a 50 pessoas, pois só com mais recursos humanos será
possível atingir os 70 ou 80 lugares de capacidade.
O perfil dos
residentes que passam pela Casa Corcel é ditado por outros factores
responsáveis pelo crescente número de sem-abrigo. “Há mais pressão, mais stress
que cria desordens mentais. As pessoas tornam-se demasiado stressadas, não são
ouvidas e eventualmente acabam por sair de casa e ficam sozinhas em pequenos
apartamentos não conseguindo pagar rendas.” Um círculo vicioso recorrente
nestes casos, explica Paul Pun.
Casos mentais
Os casos mais
comuns são doentes mentais, pessoas com transtorno de personalidade,
dependentes de álcool ou drogas, explica o IAS. Depois há também os casos
decorrentes de problemas económicos devido a relações familiares e ao
desemprego. Os homens rondam a casa dos 50 enquanto as mulheres têm por volta
de 40 anos. “Em situações extremas temos pessoas na casa dos 20 anos, mas
ajudamo-los a encontrar trabalho e não ficam muito tempo por cá”, completa Paul
Pun.
A ideia é, em todos
os casos, evitar o prolongamento da sua estadia, porque mais difícil fica de
ajudar estas pessoas. O período máximo de permanência estabelecido pela Casa
Corcel é de seis meses, podendo ser prorrogado o prazo até um ano. Apenas casos
de doentes mentais ficam por mais de dois anos.
No apoio prestado
por técnicos, assistentes sociais e psicólogos ajudam-nos a arranjar onde
ficar, um trabalho e acompanhamento médico, se necessário, agindo para o seu
reencaminhamento. “Aqueles que encontram trabalho, no princípio ainda os
deixamos ficar connosco por alguns meses, para pouparem algum dinheiro e então
encontrarem um apartamento fora”, explica Paul Pun, que nos primeiros três
meses vai fazendo um relatório do caso ao IAS.
O trabalho tem de
ser cauteloso, com atenção, para criar laços de confiança e proximidade, já que
os habitantes das ruas não se deixam facilmente convencer a ser acolhidos no
lar da Caritas. “Se querem ficar na rua, deixamo-los ficar lá, aceitamo-los”,
explica o responsável. “As pessoas pedem para que eles sejam levados da área
onde moram, mas têm o direito de lá ficar, eles só devem mudar no momento em
que se sentem preparados.”
Habitação social
precisa-se
Além do apoio
financeiro para a estrutura social, o IAS oferece outros montantes para cobrir
despesas que, ainda assim, refere Paul Pun, não são suficientes. “Temos de
encontrar um fundo extra, mas o Governo pode ajudar com mais assistentes
sociais na rua, por exemplo”, expõe o dirigente.
Aos alojados é-lhes
prestada ajuda económica para arranjarem uma habitação arrendada para
permanência temporária. “Dão-lhes um apoio directamente de 3.200 patacas, o que
não é suficiente para arranjar uma casa, por isso geralmente apenas arranjam um
quarto, pagam 800 e partilham a casa.”
Por essa razão, a
melhor solução, explica o dirigente da Caritas, seria arranjarem-lhes
possibilidade de se candidatarem à habitação social, para a qual, sublinha,
ainda não estão qualificados a candidatarem-se.



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