Sábado, 18 de Agosto de 2012

Macau: Há cada vez mais sem-abrigo e as mulheres são as mais afectadas




Números alarmantes de desalojados em Macau

Rita Marques Ramos – Hoje Macau - 17 Ago 2012

Até Junho, o abrigo da Caritas recebeu 246 pessoas, mais 84 do que no ano passado, segundo dados do Instituto de Acção Social (IAS)

A prosperidade financeira do território, que tem a menor taxa de desemprego de que há registo (2%), não chega para evitar a crescente taxa de sem-abrigo em Macau. Os últimos registos mostram um aumento significativo de residentes que precisam de ajuda dos serviços governamentais (IAS) e da Caritas Macau, que no último ano acolheram na Casa Corcel – o antigo Centro de Acolhimento para Desalojados – 368 pessoas. Um crescimento em cerca de 57% face a 2010. Nos primeiros seis meses deste ano, comparativamente a período homólogo de 2011, a tendência mantém-se. Foram albergadas 246 pessoas até Junho, mais 84 do que nos primeiros seis meses do ano passado, segundo dados avançados pelo Instituto de Acção Social (IAS) ao Hoje Macau.

Actualmente, nas ruas da cidade encontram-se ainda cerca de 40 a 50 sem-abrigo, avançou Paul Pun, secretário-geral da Caritas Macau, entidade diocesana responsável pela Casa Corcel, na Ilha Verde. “Parece não ser um grande número mas proporcionalmente, tendo em conta o número total de habitantes, é bem maior do que em Hong Kong.”

As razões para este flagelo estão associadas a diferentes causas. Paul Pun evidencia a principal. “Hoje em dia não conseguem pagar a renda e são convidados a sair, estão cada vez mais altas.”

Numa sociedade moderna, com cada vez mais mulheres trabalhadoras, quem era pouco afectado já não escapa: as mulheres. “Não havia muitas a caírem nas ruas”, explica. Hoje são mais independentes e, por isso, acabam por ser um alvo mais fácil.

Apoio técnico insuficiente

Os serviços de abrigo da Caritas, situados no Centro Social Mateus Ricci, abriram com o director-fundador Padre Luis Ruis Suarez nos anos 70, ajudando homens necessitados. Só nos anos 90 a Caritas arranjou um asilo temporário, que acolhia habitualmente cerca de 20 homens. Um número muito limitado de vagas, explica o IAS, com um ambiente “simples e tosco”. “Era apenas um armazém em que até às casas de banho eram pequenas”, atesta Paul Pun.

Em Setembro de 2007, os serviços de acção social prestaram apoio financeiro para reconstruir um edifício com sete pisos destinado ao acolhimento de sem-abrigo, sob a gestão da Caritas. “Este equipamento social é capaz de prestar agora serviços a um total de 86 desalojados, reservando um piso para o alojamento das mulheres”, explica o IAS. Números não confirmados para já por Paul Pun, que só vê capacidade na Casa para acolher 40 a 50 pessoas, pois só com mais recursos humanos será possível atingir os 70 ou 80 lugares de capacidade.

O perfil dos residentes que passam pela Casa Corcel é ditado por outros factores responsáveis pelo crescente número de sem-abrigo. “Há mais pressão, mais stress que cria desordens mentais. As pessoas tornam-se demasiado stressadas, não são ouvidas e eventualmente acabam por sair de casa e ficam sozinhas em pequenos apartamentos não conseguindo pagar rendas.” Um círculo vicioso recorrente nestes casos, explica Paul Pun.

Casos mentais

Os casos mais comuns são doentes mentais, pessoas com transtorno de personalidade, dependentes de álcool ou drogas, explica o IAS. Depois há também os casos decorrentes de problemas económicos devido a relações familiares e ao desemprego. Os homens rondam a casa dos 50 enquanto as mulheres têm por volta de 40 anos. “Em situações extremas temos pessoas na casa dos 20 anos, mas ajudamo-los a encontrar trabalho e não ficam muito tempo por cá”, completa Paul Pun.

A ideia é, em todos os casos, evitar o prolongamento da sua estadia, porque mais difícil fica de ajudar estas pessoas. O período máximo de permanência estabelecido pela Casa Corcel é de seis meses, podendo ser prorrogado o prazo até um ano. Apenas casos de doentes mentais ficam por mais de dois anos.

No apoio prestado por técnicos, assistentes sociais e psicólogos ajudam-nos a arranjar onde ficar, um trabalho e acompanhamento médico, se necessário, agindo para o seu reencaminhamento. “Aqueles que encontram trabalho, no princípio ainda os deixamos ficar connosco por alguns meses, para pouparem algum dinheiro e então encontrarem um apartamento fora”, explica Paul Pun, que nos primeiros três meses vai fazendo um relatório do caso ao IAS.

O trabalho tem de ser cauteloso, com atenção, para criar laços de confiança e proximidade, já que os habitantes das ruas não se deixam facilmente convencer a ser acolhidos no lar da Caritas. “Se querem ficar na rua, deixamo-los ficar lá, aceitamo-los”, explica o responsável. “As pessoas pedem para que eles sejam levados da área onde moram, mas têm o direito de lá ficar, eles só devem mudar no momento em que se sentem preparados.”

Habitação social precisa-se

Além do apoio financeiro para a estrutura social, o IAS oferece outros montantes para cobrir despesas que, ainda assim, refere Paul Pun, não são suficientes. “Temos de encontrar um fundo extra, mas o Governo pode ajudar com mais assistentes sociais na rua, por exemplo”, expõe o dirigente.

Aos alojados é-lhes prestada ajuda económica para arranjarem uma habitação arrendada para permanência temporária. “Dão-lhes um apoio directamente de 3.200 patacas, o que não é suficiente para arranjar uma casa, por isso geralmente apenas arranjam um quarto, pagam 800 e partilham a casa.”

Por essa razão, a melhor solução, explica o dirigente da Caritas, seria arranjarem-lhes possibilidade de se candidatarem à habitação social, para a qual, sublinha, ainda não estão qualificados a candidatarem-se.

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