
O perfil de Julia Eileen Gillard
A surpresa eleitoral de uma ruiva com forte sotaque australiano
LUÍS NAVES - DIÁRIO DE NOTÍCIAS – 11 setembro 2010
Quando em Junho conquistou a liderança dos trabalhistas, substituindo o primeiro-ministro Kevin Rudd e assumindo o governo, talvez Gillard fosse uma figura de transição, para perder eleições. Não as ganhou, mas tem maioria e assume o poder.
O novo governo australiano, liderado por Julia Gillard, pode durar apenas meses. Se um deputado da maioria adoecer, se alguém se demitir, se um dos apoiantes morrer ou um independente mudar de ideias, isso será suficiente para pôr em perigo a estabilidade.
Em Maio, ninguém poderia prever que Julia Gillard, de 49 anos, se tornasse a primeira mulher eleita primeira-ministra na Austrália. Ela derrubou um chefe de governo do seu partido, arriscou eleições quando ainda mal aquecera o lugar e ficou com menos deputados que o adversário. Mas superou na recta final a coligação liberal-conservadora, atraindo três independentes decisivos.
A estabilidade do executivo está no fio da navalha, mas Gillard move-se bem nestas situações, sendo figura controversa, que atrai tanta admiração como hostilidade. Política sem contemplações ou falinhas mansas, a nova primeira-ministra australiana é uma líder improvável.
As origens sociais Julia Eileen Gillard nasceu no País de Gales em 1961 e, porque tinha uma doença pulmonar grave, os pais decidiram emigrar para a Austrália em meados dos anos 60. O pai era enfermeiro e a mãe trabalhava numa cozinha e, talvez pelas origens sociais modestas, Julia tornou-se uma estudante exemplar, com vertente contestatária.
Na faculdade de Direito tornou-se dirigente estudantil. Depois de vários anos de advocacia, Gillard enveredou pela política, na ala mais à esquerda dos trabalhistas australianos. Foi eleita para o Parlamento em 1998 e sempre alvo de críticas por ser mulher, por não ter filhos, por ter a língua afiada.
Nos nove anos seguintes, a deputada de Melburne foi suavizando o estilo, aumentando o carácter de sofisticação da imagem. Livrou-se do sotaque fortemente australiano e reduziu o tom irritante da voz, mudando a escolha de vestidos e os cortes do cabelo ruivo.
Em 2007, após onze anos de coligação conservadora, os trabalhistas voltaram ao poder. A confortável maioria na câmara baixa era de 115 deputados (em 150). O líder chamava-se Kevin Rudd, um político afável, embora sem carisma, que apostava em temas políticos inovadores, como por exemplo o combate às alterações climáticas.
No início, o mandato correu bem, mesmo depois da crise financeira, que o Governo australiano geriu de forma eficaz. Mas havia divisões partidárias. Se a imagem pública de Rudd tinha algo de sonhador e romântico, o seu estilo era demasiado centralizador, embora isso não tivesse impedido Gillard de se distinguir no Governo, como ministra do Emprego, do Trabalho e da Educação. A imprensa ironizava, chamando-lhe a ministra de tudo.
A sua vida pessoal também foi objecto de sarcasmo: o discreto parceiro, Tim Mathieson, é um ex-cabeleireiro, o que produz piadas sobre os penteados da ministra.
O golpe interno
A situação dos trabalhistas inverteu-se em Abril deste ano, quando Rudd adiou para 2013 a introdução de uma reforma sobre alterações climáticas, ao mesmo tempo que surgiam controvérsias sobre os lucros das empresas mineiras e sobre os clandestinos que procuravam asilo.
O primeiro-ministro começou a cair nas sondagens e o colapso foi rápido: a taxa de aprovação era de 71% em Abril de 2008 e de 63% em Outubro de 2009. Em Maio de 2010, caíra para 39% e, em Junho, para 33%. Nesse mês, a liderança do partido, em pânico, decidiu substituir Rudd, escolhendo Gillard para assumir o cargo de chefe de Governo. Esta substituição, para muitos a facada nas costas, ficará para sempre associada ao estilo da primeira-ministra.
As eleições de Agosto foram na realidade uma derrota para os trabalhistas, embora ninguém tivesse vencido: o resultado foi o primeiro Parlamento sem maioria em 70 anos. A coligação de direita entre liberais e nacionais elegeu 74 deputados e obteve 43% dos votos. Mas não viria a formar governo, pois aos 72 trabalhistas, juntou-se o deputado verde e, esta semana, três independentes que chegaram a negociar com o líder da coligação, Tony Abbott, rejeitando depois as suas propostas.
Uma curiosidade: pela primeira vez foi eleito para a Câmara dos Representantes um deputado de origem aborígene, Ken Wyatt, eleito pelos liberais (já houve dois senadores). Wyatt pertence à oposição e recebeu mensagens ameaçadoras, de brancos e aborígenes descontentes com a sua eleição.
Isto ilustra as surpreendentes divisões deste país tranquilo. Com maioria de 76 contra 74, a posição do Governo de Gillard tem uma fragilidade histórica. O acordo com os três independentes abrange questões orçamentais, mas não, por exemplo, a votação de uma eventual moção de censura.
A nova líder evoluiu de certo radicalismo de esquerda para o centro-esquerda, com plataforma nas reformas educativas e preservação do sistema de saúde. Este ano, as autoridades australianas interceptaram 80 navios com 4 mil clandestinos (1000 dos quais afegãos) que procuravam asilo. Não haverá contemplações: estas pessoas serão enviadas para um complexo em Timor-Leste.
A primeira-ministra australiana ganhou fama de linguagem franca e estilo político frontal. Mas, na realidade, Julia Gillard prefere os consensos e a negociação. O seu governo pode durar poucos meses, mas ela já fez história na Austrália: este é o início de um ciclo marcado pelo pragmatismo frio e determinado.
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A surpresa eleitoral de uma ruiva com forte sotaque australiano
LUÍS NAVES - DIÁRIO DE NOTÍCIAS – 11 setembro 2010
Quando em Junho conquistou a liderança dos trabalhistas, substituindo o primeiro-ministro Kevin Rudd e assumindo o governo, talvez Gillard fosse uma figura de transição, para perder eleições. Não as ganhou, mas tem maioria e assume o poder.
O novo governo australiano, liderado por Julia Gillard, pode durar apenas meses. Se um deputado da maioria adoecer, se alguém se demitir, se um dos apoiantes morrer ou um independente mudar de ideias, isso será suficiente para pôr em perigo a estabilidade.
Em Maio, ninguém poderia prever que Julia Gillard, de 49 anos, se tornasse a primeira mulher eleita primeira-ministra na Austrália. Ela derrubou um chefe de governo do seu partido, arriscou eleições quando ainda mal aquecera o lugar e ficou com menos deputados que o adversário. Mas superou na recta final a coligação liberal-conservadora, atraindo três independentes decisivos.
A estabilidade do executivo está no fio da navalha, mas Gillard move-se bem nestas situações, sendo figura controversa, que atrai tanta admiração como hostilidade. Política sem contemplações ou falinhas mansas, a nova primeira-ministra australiana é uma líder improvável.
As origens sociais Julia Eileen Gillard nasceu no País de Gales em 1961 e, porque tinha uma doença pulmonar grave, os pais decidiram emigrar para a Austrália em meados dos anos 60. O pai era enfermeiro e a mãe trabalhava numa cozinha e, talvez pelas origens sociais modestas, Julia tornou-se uma estudante exemplar, com vertente contestatária.
Na faculdade de Direito tornou-se dirigente estudantil. Depois de vários anos de advocacia, Gillard enveredou pela política, na ala mais à esquerda dos trabalhistas australianos. Foi eleita para o Parlamento em 1998 e sempre alvo de críticas por ser mulher, por não ter filhos, por ter a língua afiada.
Nos nove anos seguintes, a deputada de Melburne foi suavizando o estilo, aumentando o carácter de sofisticação da imagem. Livrou-se do sotaque fortemente australiano e reduziu o tom irritante da voz, mudando a escolha de vestidos e os cortes do cabelo ruivo.
Em 2007, após onze anos de coligação conservadora, os trabalhistas voltaram ao poder. A confortável maioria na câmara baixa era de 115 deputados (em 150). O líder chamava-se Kevin Rudd, um político afável, embora sem carisma, que apostava em temas políticos inovadores, como por exemplo o combate às alterações climáticas.
No início, o mandato correu bem, mesmo depois da crise financeira, que o Governo australiano geriu de forma eficaz. Mas havia divisões partidárias. Se a imagem pública de Rudd tinha algo de sonhador e romântico, o seu estilo era demasiado centralizador, embora isso não tivesse impedido Gillard de se distinguir no Governo, como ministra do Emprego, do Trabalho e da Educação. A imprensa ironizava, chamando-lhe a ministra de tudo.
A sua vida pessoal também foi objecto de sarcasmo: o discreto parceiro, Tim Mathieson, é um ex-cabeleireiro, o que produz piadas sobre os penteados da ministra.
O golpe interno
A situação dos trabalhistas inverteu-se em Abril deste ano, quando Rudd adiou para 2013 a introdução de uma reforma sobre alterações climáticas, ao mesmo tempo que surgiam controvérsias sobre os lucros das empresas mineiras e sobre os clandestinos que procuravam asilo.
O primeiro-ministro começou a cair nas sondagens e o colapso foi rápido: a taxa de aprovação era de 71% em Abril de 2008 e de 63% em Outubro de 2009. Em Maio de 2010, caíra para 39% e, em Junho, para 33%. Nesse mês, a liderança do partido, em pânico, decidiu substituir Rudd, escolhendo Gillard para assumir o cargo de chefe de Governo. Esta substituição, para muitos a facada nas costas, ficará para sempre associada ao estilo da primeira-ministra.
As eleições de Agosto foram na realidade uma derrota para os trabalhistas, embora ninguém tivesse vencido: o resultado foi o primeiro Parlamento sem maioria em 70 anos. A coligação de direita entre liberais e nacionais elegeu 74 deputados e obteve 43% dos votos. Mas não viria a formar governo, pois aos 72 trabalhistas, juntou-se o deputado verde e, esta semana, três independentes que chegaram a negociar com o líder da coligação, Tony Abbott, rejeitando depois as suas propostas.
Uma curiosidade: pela primeira vez foi eleito para a Câmara dos Representantes um deputado de origem aborígene, Ken Wyatt, eleito pelos liberais (já houve dois senadores). Wyatt pertence à oposição e recebeu mensagens ameaçadoras, de brancos e aborígenes descontentes com a sua eleição.
Isto ilustra as surpreendentes divisões deste país tranquilo. Com maioria de 76 contra 74, a posição do Governo de Gillard tem uma fragilidade histórica. O acordo com os três independentes abrange questões orçamentais, mas não, por exemplo, a votação de uma eventual moção de censura.
A nova líder evoluiu de certo radicalismo de esquerda para o centro-esquerda, com plataforma nas reformas educativas e preservação do sistema de saúde. Este ano, as autoridades australianas interceptaram 80 navios com 4 mil clandestinos (1000 dos quais afegãos) que procuravam asilo. Não haverá contemplações: estas pessoas serão enviadas para um complexo em Timor-Leste.
A primeira-ministra australiana ganhou fama de linguagem franca e estilo político frontal. Mas, na realidade, Julia Gillard prefere os consensos e a negociação. O seu governo pode durar poucos meses, mas ela já fez história na Austrália: este é o início de um ciclo marcado pelo pragmatismo frio e determinado.
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